Acabo de levar uma tampa. Podia chamar-lhe tampa cultural, mas como recuso a atribuição de características identitárias a esse acaso civilizacional humano que é a divisão artimética entre línguas-nações-culturas, vou apenas designar o que me acaba de acontecer por ‘tampa’.
Devia estar, neste momento, a lecionar a primeira aula do segundo semestre, que, de acordo com o calendário escolar por que me rejo, deveria ter lugar hoje. Mas aqui me encontro, um professor sozinho numa sala de aula moderna e tecnologicamente invejável de uma universidade portuguesa, sem alunos, embora com alguns rebolando e gritando na relva verdejante que consigo apreciar desde as vistosas janelas que me rodeiam.
Sendo assim, lecionou-se-me alguma coisa. Sou um tipo ansioso, é certo. Preparei esta aula com afinco, é certo. Mas não vou daqui sem nada. Não menosprezo a didática da vida quotidiana.
Se um calendário escolar te parece ilógico, por situar o início de um semestre um dia antes de uma espécie de feriado, não sobrestimes quem o fez. A ideia é mesmo começar no terceiro dia. A oficialidade das coisas é um valor relativo e é a tua ansiedade que não vale a pena.